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Notas

Aula 04


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Introdução

Na epidemiologia, estamos sempre querendo entender a causa de um efeito, de uma doença, de uma condição, mas quase sempre isso não é possível, em sua totalidade. Isso ocorre pois vários fatores, e não apenas um, na maioria dos casos, são os causadores. Desse modo, é importante que você entenda melhor sobre causalidade. A causalidade é definida como o agente que liga dois processos, sendo que um é a causa e o outro o efeito. O primeiro é entendido como sendo, ao menos em parte, responsável pela existência do segundo, de tal modo que o segundo é dependente do primeiro.

Ao final desta aula, você será capaz de:

  • conhecer a definição de causalidade;
  • entender a causalidade na epidemiologia;
  • identificar a causalidade como essencial nos estudos epidemiológicos.

Investigação Etiológica e Causalidade

Desde a Antiguidade, a humanidade esteve interessada na pesquisa das causas, ou seja, em compreender aquilo que faz com que uma coisa exista, que determina um acontecimento, a origem, o vínculo que correlaciona fenômenos e faz com que um ou vários deles apareçam como condição da existência de outro.

Por exemplo, observe a figura a seguir. Será que quanto maior o número de bombeiros, maior é a magnitude do fogo a ser apagado? Existe esta associação? A maior quantidade de bombeiros é a causa da magnitude do fogo? Ou é o contrário?

Figura 1 – Causalidade A e B
Fonte: Elaborada pelo autor.

Será que é porque o galo canta que o sol nasce? Ou é o contrário? Parece algo simples e lógico, mas muitas pessoas não pensam nessas associações.

Causa pode ser definida como qualquer evento, característica ou condição que desempenhe essencial função essencial na ocorrência da doença. Já causalidade é um conceito subjetivo e relativo e subjetivo, pois efeito de uma causa é sempre relativo a uma outra causa.

Por exemplo, a expressão “A é a causadora de B” significa que A é a causadora de B relativamente a alguma outra causa que, frequentemente, se refere à condição “não A”. Ao se falar que tabagismo causa câncer de pulmão, primeiro é necessário especificar a causa alternativa, que, por exemplo, pode ser  tabagismo recente ou não tabagismo.

Veja outro exemplo na figura a seguir.

Figura 2 – Exemplo de causalidade alternativa – relativa
Fonte: Elaborada pelo autor.

Muitas pessoas que possuem os dentes amarelados possuem também câncro de pulmão. Será que dentes amarelados causam câncro de pulmão, ou vice-versa? Não. Precisamos pensar na causa relativa. Pessoas que fumam muito ou possuem histórico de tabagismo podem desenvolver câncer de pulmão e, também provavelmente, possuem os dentes amarelados.

SAIBA MAIS

Leia esse artigo que teve como objetivo analisar as atribuições de causalidade para o sucesso, o fracasso escolar e a resiliência em estudantes do ensino fundamental, bem como verificar se existem relações entre esses construtos na amostra. Segue o link: <https://bit.ly/2IuxDYs>. Acesso em: 23 maio 2019.

As relações de causa e efeito entre fenômenos são características do estudo da causalidade. Um dos tipos de determinismo que é observado em pesquisas é a causalidade. Podemos definir determinismo como relação existente entre os fenômenos. Desde os seus primórdios, a investigação dos agentes etiológicos das doenças sempre foi um objetivo prioritário da epidemiologia. No final do século XIX até meados do século XX, iniciou um grande enfoque às doenças infectocontagiosas, tendo em vista a evolução da microbiologia e a grande prevalência de doenças infecciosas no mundo.

Foi adotada, inicialmente, uma abordagem unicausal para o processo de adoecimento, ou seja, um agente etiológico acompanhava toda doença e, uma vez identificado, poderia ser combatido. Essa abordagem solucionou vários problemas de saúde pública não infecciosas, como é o caso do “bócio endêmico”, que foi praticamente eliminado pela iodação do sal de cozinha.

A abordagem unicausal, com a evolução do conhecimento científico, não foi capaz de explicar as causas de várias doenças, surgindo, assim, a abordagem multicausal para a investigação dos agentes etiológicos.

SAIBA MAIS

Aluno(a), defendemos a tese de que, na atual fase de maturação do campo epidemiológico, uma reavaliação do conceito de risco é necessária. Leia, portanto, o artigo em anexo, intitulado “Causalidade, contingência, complexidade: o futuro do conceito de risco”. Segue o link: <https://bit.ly/2L2Rrn7>. Acesso em: 23 maio 2019.

Leavell e Clark, em 1958 (ALEXANDRE, 2012), formularam a tríade ecológica que define o modelo de causalidade das doenças a partir das relações entre agente, hospedeiro e meio ambiente. De acordo com a teoria da causalidade, o processo saúde-doença é o conjunto de relações e variáveis que produz e condiciona o estado de saúde e doença de uma população, sendo que essa determinação se modifica de acordo com o processo histórico da humanidade e o desenvolvimento científico.

Figura 3 – Tríade ecológica
Fonte: Elaborada pelo autor.

Outros modelos explicativos da ocorrência de doenças incluem a rede de causas e o modelo sistêmico. O modelo da rede de causas foi formulado por MacMahon e Pugh em 1970, e nele as doenças são causadas por múltiplas causas, algumas das quais atuariam mais ou menos próximas do adoecimento. É também chamado de teia, emaranhado ou trama, sendo que, para cada afecção, haveria uma ou mais causas, que, quando alvos de intervenção, resultariam em redução da incidência, independente do seu posicionamento na rede. No modelo sistêmico, as causas das doenças estão em diferentes sistemas de organização, desde o celular até o social, passando por níveis intermediários, como os órgãos e os indivíduos.

De forma geral, os cientistas consideram as associações causais como etapas do processo de conhecimento da história natural da doença e da epidemiologia. Já profissionais envolvidos com a prevenção das doenças necessitam concluir rapidamente suas ações, tão logo alguma evidência tenha sido atingida.

No ambiente epidemiológico, a questão causal tem sido apresentada também de uma forma determinante, já que a ocorrência de uma doença não está associada exclusivamente a uma única causa, mas sim a várias. Para ocorrer a doença, é necessário um conjunto de causas componentes (multicausais).

De forma geral, existem três tipos de causa: a suficiente, a necessária e a contribuinte. Causa suficiente é definida como um conjunto de eventos e condições mínimos que inevitavelmente acarreta a ocorrência de doença. Nota-se ainda que, para a ocorrência de uma determinada doença, pode haver diversos conjuntos de causas suficientes. Algumas causas componentes, quando presentes em todas as causas suficientes alternativas, são chamadas causas necessárias. Outras, para serem identificadas, dependem da interação com outras causas componentes. A causa necessária está presente sempre que algo ocorre, e esse não acontece se ela não estiver presente. É, portanto, necessária para que o efeito ocorra, e somente ela é suficiente para tal. Por fim, a causa contribuinte é uma causa que, apesar de não ser suficiente nem necessária, contribui em muito para aumentar o risco de se adoecer.

Muitas causas que são de interesse da epidemiologia, embora não sejam suficientes, são componentes de causas suficientes. Dispor de água não tratada não é suficiente para o surgimento de doenças diarreicas e fumar não é suficiente para produzir câncer de pulmão, mas ambos são causas componentes de causas suficientes.

Observa-se, ainda, que a identificação completa de todas as causas componentes de uma determinada causa suficiente, mesmo que seja possível e viável, não é fundamental se o objetivo é a prevenção da doença. Por exemplo, mesmo não sendo capaz de identificar todas as causas componentes de uma dada causa suficiente para câncer de pulmão, entre as quais está o hábito de fumar, é possível prevenir aqueles casos que resultariam dessa causa suficiente pela remoção do fumo da constelação de causas componentes.

De forma geral e dinâmica, veja o exemplo do que causaria um certo sintoma, como dores de cabeça, em um indivíduo:

Figura 4 – Exemplo de causas e sintomas
Fonte:Vaportec, [s.d.]).

São desconhecidos os componentes de uma causa suficiente. Portanto, isso exige hipóteses específicas, além de apropriados modelos para que se possa fazer a avaliação dos efeitos observados, atribuída a uma causa estabelecida. Para a estatística, é uma tarefa bem básica averiguar a existência de associação. A primeira tentativa formalizada para identificar as causas de uma doença se deu, em 1980, com a formulação, dos Postulados de Henle-Koch. Os mesmos postulados englobavam a necessidade de estabelecer regras que puderam ser utilizadas de guia para a investigação de bactérias como possíveis agentes causais das doenças.

As modificações culminaram em 1965, com os critérios estabelecidos por Hill.

SAIBA MAIS

Indico a você a leitura do artigo “Diferenciais de mortalidade por causas nas faixas etárias limítrofes de idosos”. O objetivo do estudo foi identificar e comparar a escala de prioridades na saúde de idosos mais jovens (60 a 69 anos de idade) e longevos (80 anos ou mais), segundo causas de mortalidade no Rio Grande do Norte, no período de 2001 a 2011. Segue o link: <https://bit.ly/2ItDQDO>. Acesso em: 23 maio 2019.

Vamos estudar agora a especificidade. A causa é específica para um efeito determinado se a introdução de um suposto fator causal é seguida da ocorrência do efeito e sua remoção implica que tal efeito não ocorra. Muitos fatores implicam vários efeitos e praticamente todas as doenças têm múltiplas causas. A especificidade de uma associação respalda uma interpretação causal, mas sua falta não deve ser indicação de não causalidade.

Vale lembrar que a causa deve necessariamente preceder, vir antes do efeito. Os estudos transversais e retrospectivos muitas vezes carecem dessa evidência, o que dificulta a atribuição de causalidade.

SAIBA MAIS

Muitas das hospitalizações têm como causa asdoenças respiratórias. Nessa temática, leia o artigo sugerido, que teve comoobjetivo fazer um levantamento epidemiológico das internações hospitalares pordoenças respiratórias no Serviço de Clínica Médica do Hospital Geral de Caxiasdo Sul no Estado do Rio Grande do Sul. Segue o link: <https://bit.ly/2Kv036L>.Acesso em: 23 maio 2019.

SAIBA MAIS

O artigo sugerido teve como objetivo analisar a mortalidade por diabetes mellitus em idosos e a subenumeração do diabetes como causa do óbito, de acordo com estatísticas baseadas unicamente em causa básica de óbito. Será que a dibetes mellitus em idosos é uma casa de morte ainda bastante prevalente em nosso país?

Segue o link: <https://bit.ly/2IWFZqy>. Acesso em: 23 maio 2019.

Uma analogia simples pode aumentar a credibilidade para uma atribuição de causalidade. Por exemplo, se é conhecido que certa droga causa má-formação congênita, talvez uma outra similar que se está estudando também poderia, por analogia, apresentar o mesmo efeito.

SAIBA MAIS

O artigo sugerido, “Perfil sociodemográfico e condição bucal de usuários de drogas em dois municípios do Estado do Paraná, Brasil”, teve como objetivo identificar o perfil sociodemográfico e a condição bucal dessa população, em dois municípios paranaenses. Neste artigo, foi revelado que o uso de drogas causa alterações comportamentais nos indivíduos.

Segue o link: <https://bit.ly/2XxhREx>. Acesso em: 23 maio 2019.

QUESTÃO OBJETIVA

O evento, característica ou condição que precede o evento doença e sem o qual a doença não teria ocorrido ou teria ocorrido mais tardiamente é a definição de causa. Assinale a alternativa correta a respeito das causas de doenças ou condições de saúde:

Os dois tipos de causa existentes são a suficiente e necessária.

Existem três tipos de causas, e não apenas duas. Causa suficiente, necessária e contribuinte.

Os quatro tipos de causa existentes são a suficiente, necessária, contribuinte e determinante.

Não existe causa determinante. Existem apenas três tipos: suficiente, necessária e contribuinte.

Causa contribuinte é aquela quando uma determinada característica colabora para o aparecimento de uma doença, mas não é necessária nem mesmo suficiente.

Os três tipos de causa são: suficiente, necessária e contribuinte. Essa última é aquela quando uma determinada característica colabora para o aparecimento de uma doença ou condição de saúde.

Causa determinante é aquela quando uma determinada característica colabora para o aparecimento de uma doença, mas não é necessária nem mesmo suficiente.

Não existe causa determinante. Quando uma determinada característica colabora para o aparecimento de uma doença, mas não é necessária nem mesmo suficiente, chamamos de causa contribuinte.

Causa suficiente é aquela quando uma determinada característica colabora para o aparecimento de uma doença, mas não é necessária nem mesmo determinante.

A causa suficiente é aquela quando uma determinada característica, por si só, desenvolve a doença.

QUESTÃO OBJETIVA

Causalidade é um conceito relativo, devendo ser compreendido em relação a alternativas concebíveis. Isto é, o efeito de uma causa é sempre relativo a uma outra causa. Sobre causa em epidemiologia, assinale a alternativa correta:

Causa é definida como qualquer condição, evento ou característica que desempenhe uma função essencial na ocorrência da doença.

A causa de uma doença ou condição de saúde pode ser definida como qualquer  condição, evento ou característica que desempenhe uma função essencial na ocorrência deles.

A evolução do conceito de causalidade não está relacionada a uma mudança no paradigma do conhecimento científico com forte componente de observação.

O conceito de causalidade está relacionado às mudanças no paradigma do conhecimento científico, o que possui  forte componente de observação.

A teoria dos miasmas defendia a ideia de que as doenças eram causadas por bruxaria e poderes demoníacos.

A teoria dos miasmas defendia a ideia de que vapores, putrefação no solo, por exemplo, eram causas das doenças.

Atualmente, temos o conceito de processo de relações não causais que emprega o tratamento adequado de interações dentro desses processos de causa.

O conceito de processo de relações causais que emprega o tratamento adequado de interações dentro desses processos de causa está vigente nos dias atuais.

A teoria da multicausalidade defende que apenas uma única causa é suficiente para o surgimento de uma doença ou condição de saúde.

A teoria da multicausalidade defende que vários são os aspectos causais para que uma doença ou condição de saúde se origine e se propague.

Fechamento

As doenças e as condições de saúde possuem diversas causas. Raramente, uma única causa é responsável pelo desenvolvimento de uma doença/condição de saúde, como em algumas doenças infectocontagiosas. Entender sobre causalidade é necessário para que qualquer profissional de saúde possa permear melhor a etiologia, prevenção e possível tratamento de uma doença ou condição associada à saúde da população.

Nesta aula, você teve a oportunidade de:

  • conhecer a definição de causalidade;
  • entender a causalidade na epidemiologia;
  • identificar a causalidade como essencial nos estudos epidemiológicos.

Vídeo

Para complementar o seu aprendizado, assista o vídeo a seguir:

Aula Concluída!

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